Um minuto de desculpas

É, André Luiz Moreira dos Santos, não tem sido fácil para nosso orgulho esbranquiçado descobrir, a cada voo, que o aeroporto virou uma rodoviária. Que aquelas senhoras negras de avental da Escrava Isaura estão deixando de posar ao lado dos senhores do engenho à mesa aguardando ordens. Para depois comer as sobras. Elas estão estudando, aprendendo um ofício, daqui a pouco vão deixar de ser coadjuvantes na Rede Globo para desaparecer de vez dos tanques e das cozinhas. Como nos filmes de Hollywood, onde casais de todas as cores preparam suas próprias panquecas e levam seus filhos à escola. E, de repente, você descobre a mãe Fernanda e toda família do Vinícius Jr. nas tribunas do Estádio Nilton Santos curtindo uma alegria emancipada. Quanto ousadia! E você ali nas arquibancadas sofrendo com aquele empate com o Flamengo dentro de casa…

Você não notou, diante da normalidade cotidiana que precedeu “aquela aberração”, que o motorista do ônibus que o levou ao Engenhão era negro. Que os porteiros, manobristas e seguranças do seu estádio também eram negros. Estavam ocupando lugares onde nunca saíram desde que aqui desembarcaram em navios negreiros. E, de repente, vem uma proposta do Real Madrid e, no regime de cotas do mundo da bola, retira detrás das cortinas sociais quem somente as lavava. Aqueles que jamais tiveram o direito de se apresentar no teatro da plena cidadania.

Seu time, o Botafogo, só deixou de ser uma solitária estrela na constelação do futebol mundial porque mestiços como Garrincha, Nilton Santos e Jairzinho  ganharam copas do mundo. E que seu maior artilheiro foi um Quarentinha. E um negro de chuteiras e luvas, Jéferson,  defende há anos seu pavilhão e foi o ultimo do seu time a alcançar a seleção. Depois da Patrícia, a gremista que debochou do Aranha, foi você, André, que expôs abertamente na Copa do Brasil, para todo Brasil, o tamanho do nosso racismo. Que não tem uma história de superação, em sua segregação, como o povo americano que teve a coragem de assumi-lo ao dividir bairros, escolas, lugares nos ônibus, para mais tarde ter a humildade de eleger um presidente negro. Já o nosso, cínico, enrustido, do qu al você foi o ultimo porta-voz, ainda resiste perante sua hipocrisia.

Millôr Fernandes, nosso mestre, escreveu certo dia que no Brasil não há racismo porque o negro conhece o seu lugar. E naquela Tribuna de Honra de um país sem honra, quem disse que ali era o lugar da família Vinícius Jr.? Mas quarta-feira tem o jogo da volta. E o Maracanã, palco de uma majestade negra, o Rei Pelé, que reverenciou Leônidas da Silva, Denílson, o Rei Zulu e se encantou com Fio Maravilha, pode ser mais que um templo do futebol. No lugar de um minuto de silêncio antes da bola rolar para Flamengo x Botafogo, que tal respeitar um minuto de desculpas, devidos desde Barbosa, em prol dos ídolos de ébano a quem  insistimos humilhar?

José Roberto Padilha é jornalista, ex-atleta do Fluminense, Flamengo, Santa Cruz e Americano, entre outros.

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