ESPAÇO RECONCEDIDO À ARTE

Como ponta esquerda, eu já entrava em campo visualizando o camisa 2 adversário. Era com ele que, durante os 90 minutos, duelaria numa faixa definida de campo. Precisava vencê-lo para alcançar a linha de fundo e colocar a bola na cabeça do Flávio, o Minuano, do Mickey ou do Manfrine.

Ao lateral, cabia evitar meus dribles, quando tinha fôlego, tinha que acompanhá-lo nas descidas quando raramente se arriscava ao apoio. E assim, vários duelos, em vários setores do campo, eram definidos dentro de um esporte coletivo. Pagavam ingressos para a partida, mas às vezes o duelo particular do lateral esquerdo com o Garrincha por si só valia o acesso ao Maracanã. 
Imagino em São Paulo, como dormiam os zagueiros do Palmeiras, do São Paulo, às vésperas de enfrentar Pelé e Coutinho. Hoje, não há mais pontas ou laterais, são todos contra todos, e a ordem é que os dez marquem o adversário atrás da linha da bola, e o espaço pro duelo deixa de ser técnico e vira tático.

É Muricy contra Cristovão, Ney Franco versus Abel Braga, treinadores que tiraram o foco do campo, alcançaram os maiores salários dos clubes e acabam de roubar dos atletas a primazia do estrelato nos comerciais e patrocínios. Triste do futebol que passa pro comandante os holofotes da fama.

Não se comparam épocas e seus craques. Todos atuavam diante das condições específicas de cada uma. O que o esporte tem feito é adaptar regras, inserir novas tecnologias para melhor acompanhar a sua evolução. O Tênis tratou logo de recorrer ao replay instantâneo para julgar com precisão um ace a 200km porque o olhar humano já não acompanhava a velocidade da bola. 

O Futsal liberou o goleiro pra linha e o voleibol partiu pro chip na bola. Ao futebol só resta, diante do espaço engolido pela marcação, devolvê-lo retirando um home de campo. A partir da Copa, que já desnudará o poder da marcação sobre a criação, o poder o carrinho sobre o drible, deverão ser apenas 10 de cada lado. Nove na linha e um no gol. E cabe ao Brasil, berço do futebol-arte, o exemplo e a busca pela retomada do espaço perdido.

A questão é de matemática: se na década de 70 e 80 percorríamos 3,8km por partida e hoje o Lodeiro, o Márcio Araújo e o Jean percorrem as mesmas dimensões oficiais em 6,5km, espaços maiores foram ocupados dentro de campo privilegiando a marcação. Porque a arte precisa de segundos para Rivelino preparar seu elástico em cima do Alcir. Já Amaral, precisa de apenas milésimo de segundos para roubar o novo drible do Ganso, que às vezes mal saí da idéia para a concepção.

De lá pra cá,insisto, com os mesmos 110 x 75m a serem ocupados, aprimorou-se a preparação física, a alimentação, a bola deixou de pesar como o couro e ficar leve e sintética, dando velocidade ao jogo, e o uniforme que era de malha e encharcava na chuva, hoje destila o suor em algo que ventila e purifica ainda mais os pulmões para aprontar uma correria. Aposentou-se jogador de futebol, veio à tona o atleta de futebol.

Se o estadual carioca fosse 10 contra 10, nem Seedorf, Juninho Pernambucano ou Deco precisariam se aposentar precocemente para deixar um vácuo de magia no meio campo, tristemente ocupado por aqueles que tomam a bola e a perdem novamente. Para se superarem tentando retomá-la, num esforço sem técnica que só aumenta a saudade do Gérson, do Didi e do Rivelino. 
 
Nossos maiores craques teriam metros quadrados de volta para nos brindar sem serem acossados. Se a Fernanda Montenegro ainda reina sobre os palcos foi porque desde a sua estréia ela só o divide com a arte. Põe o Guinazu lá em cima, o Diguinho nos seus monólogos, onze contra onze, que o teatro, como o futebol, logo cedo perderá o seu fascínio. Shakespeare, Moliére não passarão de folhetins. O que peço é que as nossas Fernandas da bola não fiquem mais de pé, diante dos torcedores do Milan, impassíveis perante a mediocridade explícita. Que retomem o comando dos gramados, e façam com que sua arte não seja eterna, mas que permaneça imortal enquanto durem.

José Roberto Padilha é jornalista, ex-atleta do Fluminense, Flamengo, Santa Cruz e Americano, entre outros.

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