LEMBRANCINHA DO ADEUS

É terceiro livro de Julio Ludemir, que é autor também de “No coração do comando”, “Sorria, você está na Rocinha”, “O Bandido da Chacrete”, que conta a história de um dos fundadores do Comando Vermelho, uma magnífica reportagem que narra como foi criada a mais poderosa facção criminosa do país e a história do presídio da Ilha Grande, berço do CV. Dele também temosRim por rim”, que aborda com muito fundamento o tráfico de órgãos.

“Lembrancinha do Adeus” foi, ao mesmo tempo, a melhor obra de Ludemir, segundo o escritor, e um grande fracasso comercial. Ao saber que seu livro seria incinerado, resolveu fazer o relançamento e comemorar seu 50º aniversário. Antes que “Lembrancinha” caia no esquecimento. Ou suma do mapa, como prefere o autor.

Para esse encontro com o escritor rubro-negro, está programada uma noite de autógrafos, quinta-feira, 22 de julho, a partir das 19 horas, no Bar da Morena. Rua São Manuel, segunda a direita da Rua da Passagem, em Botafogo.

Lembrancinha do Flamengo

Sou Flamengo não porque moro num país tropical e tenho uma nega chamada Teresa, mas porque amo as multidões. Ser Flamengo é kitch, mas me dá uma ambiguidade que com certeza faz de mim uma pessoa melhor. Ali, no meio daquela multidão, eu sou a pessoa mais poderosa do universo e no entanto a mais frágil do meu bairro.

Quando celebro a alegria de ser rubro-negro, no fundo estou reeditando a utopia de todos nós, de que o povo unido jamais será vencido, de que diretas já e fora Collor. E sou delicado como uma renda inglesa porque ao lançar em uníssono o grito de gol tenho também a sensação de que qualquer um podia estar no meu lugar, de que não tenho a menor importância no meio de uma nação com mais de 30 milhões em ação, pra frente Brasil.

Foi por isso que eu estava lá no dia em que o Flamengo foi hexacampeão, ainda que soubesse que só conseguiria ingresso nas mãos dos cambistas, que ia levar porrada da polícia, que não tenho mais estrutura para suportar um novo maracanaço e que quem tem 50 anos sabe que é sempre possível um novo maracanaço, porque já viu muitos.

E calhou de naquele dia eu estar no mesmo lugar em que vi o Flamengo ser penta, ao lado do meu então cunhado Renato Castro. Como eu, Renato também estava se redescobrindo como um ser ambíguo durante a épica batalha que foi aquele jogo contra o Grêmio, cujo resultado era tão certo antes do jogo começar e tão imponderável a partir de que a bolo começou a rolar.

Não estávamos mais juntos porque a vida é assim, porque ainda que as pessoas fiquem nessa nossa vida tão multitudinária quanto a torcida do Flamengo, elas passam tão rapidamente quanto o noticiário na internet, onde cada informação já nasce velha e no entanto é tão indispensável quanto ter a lembrança de que foi o Renato que abracei no dia em que o maestro Júnior balançou a massa, não Chacrinha, o velho guerreiro vascaíno.

No dia em que o Flamengo foi hexa, eu tinha ido ao jogo com o jornalista Rafael Pereira e eu tenho certeza de que se estivermos vivos veremos o jogo do hepta e nos lembraremos um do outro, da febre com a qual ele teve que lutar para estar ali e dos R$ 300 que estávamos dispostos a pagar para garantir um lugar um na história do outro.

Porque torcer pelo Flamengo me faz uma pessoa tão contraditória quanto quem organiza uma festa de 50 anos, um momento em que penso em cada um dos momentos que vivi, em que recordo como se estivesse vivendo agora a paixão por todas as minhas mulheres, a solidariedade por todos os meus amigos, o ódio que senti por todos os meus inimigos.

Tudo isso é tão descartável quanto qualquer dado estatístico nesse mundo que só não é mais vasto do que a torcida do Flamengo. E no entanto todos nós que moramos num país tropical e temos uma nega chamada Teresa só somos tão arrogantes porque sabemos que o Rafael vai pensar o quão eu fui fundamental para ele quando for celebrar seus 50 anos.

Julio Ludemir

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